Enquanto fiquei na fila, fiquei tentando decifrar os pensamentos dela. Ela parecia inquieta de estar ali comigo, mas ao mesmo tempo puxando assunto. Ela me deixava confuso, era misteriosa. Eu gostava daquilo.
Fiquei na fila, enquanto esperava a moça ter disponibilidade pra me atender e me dar meu refrigerante. Virei um pouco o rosto e fiquei olhando Alice, que estava um pouco distante. Sorri pra ela, e dessa vez ela retribuiu. Era engraçado, porque eu estava sendo natural, não estava forçando nada para conquistá-la.
Peguei meu refri e fui em direção a ela.
- É, eu to aqui há um bom tempo, mas eu to meio sem ideia de um lugar exato. A gente pode procurar um lugar florido, bem colorido sabe? É claro, que você ilumina muito mais o lugar, mas as flores ajudam um pouco. - Sorri, olhando pra ela. Era ótimo falar essas coisas pra ela, porque além de ser verdade, ela ficava um pouco sem jeito. Não sei se era bom ou ruim, ela podia não gostar disso. - Você já… foi modelo? Porque você é linda! Mas eu acho que já disse isso. - Minhas elogios nunca ou quase nunca eram correspondidos, mas eu continuava de qualquer forma.
Continuamos andando, até que achei um banquinho num canto, onde tinha bastante verde em volta, com umas flores roxas.
- Acho que aqui vai ficar perfeito. O que você acha? - Apontei pro lugar. Logo depois, sentei no banquinho, e fiz sinal pra que ela sentasse também. - Senta aqui. - Bati no banco, fazendo sinal pra que ela se sentasse ao meu lado.
Assenti quando ele falou sobre procurar algum lugar florido, mas segui ao seu lado em silêncio, evitando deixar que as minhas reações aos seus elogios transparecessem.
- É, eu já fiz alguns pequenos trabalhos como modelo, para falar a verdade, mas eu acabei descobrindo que prefiro ficar atrás das câmeras mesmo. - respondi, tentando ignorar a parte do “linda”, a voz charmosa e o seu forte perfume masculino. Nota irrelevante: eu amo perfume masculino. É uma espécie de ímã para mim. A maioria dos garotos com quem eu já saí usavam muito perfume e esse costumava ser um dos quesitos que faziam eu me interessar por eles.
- É, acho que aqui está legal. - disse quando ele apontou o lugar que havia escolhido para fazer o desenho e pediu minha opinião. Eu dei um sorriso curto, checando o horário no relógio disfarçadamente, pois não queria que ele pensasse que eu estava ansiosa para me ver livre dele, embora eu estivesse, de certa forma. Eu estava dividida: enquanto por um lado eu me sentia lisonjeada e até estava apreciando a situação, por outro, eu estava ficando cada vez mais desconfortável e tímida. Enquanto por um lado, eu queria ficar com ele, ali, sem me preocupar com o tempo e simplesmente apreciar a paisagem, por outro, a minha necessidade de voltar para o meu quarto e me trancar no meu próprio mundo, isolada do resto da civilização, era gritante.
Eu me aproximei dele, relutante, e me sentei ao seu lado, olhando de lado para o seu rosto de perfil. Eu nunca pensei sobre mim como uma dessas garotas bobas que se apaixonam facilmente, mas todo o meu histórico de relacionamentos amorosos são a prova concreta de que eu estava errada.

9. Em quem o seu personagem confia?
As únicas pessoas em que Alice confia verdadeiramente são seus pais e sua melhor amiga do Canadá.
Depois que Alice abriu a porta, fez um gesto para que eu entrasse. Ela continuava rindo e com uma certa dificuldade conseguiu fechar a porta. Se encostou na mesma e permaneceu rindo por uns minutos, até que parou. Me sentei na cama e comecei a vasculhar a bolsa em busca das folhas impressas e das canetas. Esperei que ela se sentasse para começarmos. Odeio fazer trabalhos, sinceramente, são muito chatos. E além do mais a palavra “trabalho” soa muito séria, para mim, Por mias que sejam importantes, é um exagero da parte dos professores, ameaçarem os alunos com trabalhos. Até por que isso é um tipo de ameaça.
Joguei as folhas já prontas em cima da cama e olhei para Alice. Estava com a mão sobre a barriga, tentando controlar o ataque de riso. Então olhei para a televisão, e vi o motivo do riso de Alice. Sabe aqueles programas de pegadinhas idiotas, que por mais que sejam imbecis demais, você acaba rindo? Até daquelas repetidas que já foi transmitida mil vezes. Era algo envolvendo um homem gordo caindo de uma árvore. Ou coisa do tipo. Fiquei distraída com a televisão por um tempo, quando percebi que Alice tinha parado de rir e estava olhando para as folhas espalhadas na cama. Juntei-as e comecei a organizá-las na ordem de impressão. Voltando a colocar na cama. - Isso deve ter machucado, ugh. Falei apontando para a televisão. - Mas sobre o trabalho… Sabe se falta alguma coisa? Voltei a atenção para a TV, e vi a cena do gordo caindo novamente, nada contra gordos sabe. Mas é engraçado. No mesmo instante comecei a gargalhar sem parar, como Alice estava.
Depois que a Chloe entrou, eu me escorei na porta ao ter outro incomum ataque de risos, me perguntando o quão maluca e mentalmente instável Chloe pensava que eu era agora, até que eu finalmente consegui parar de rir e me conter, decidida a terminar o trabalho de história. Chloe havia trazido várias folhas e grande parte do trabalho já estava feita, o que era um alívio, pois eu estava extremamente preguiçosa. Dias de frio - a maioria dos dias em Londres - fazem isso comigo.
- É, provavelmente - respondi, percebendo o quão triste e não engraçada aquela situação poderia ser, principalmente, se vista do ponto de vista do gordinho atrapalhado. - Eu tenho que admitir que não estou completamente certa disso. Deixe eu… - comecei a falar quando eu escutei a gargalhada de Alice vinda do outro lado do quarto.
Eu comecei a rir com ela, em uma gargalhada tão estridente e histérica quanto a anterior e, com algum esforço, caminhei até a cama e me sentei ao seu lado, sem parar de rir. E o homem gordo caiu de novo. Eu sei o quão triste e doloroso deve ter sido para ele, mas também era muito engraçado. Não importava quantas vezes, aquela cena fosse se repetir, eu, provavelmente, nunca a tiraria da cabeça, de qualquer forma. Até tentei me recompor e segurar o riso, mas, a cada vez que ouvia gargalhada de Chloe, eu ria mais um pouco. Eu cobri a boca com a mão e tentei evitar o riso, mas, quando percebi, meus olhos estavam aguados e eu estava prestes a chorar de rir - literalmente - quando meu pé acertou o controle remoto e a televisão desligou de repente. Eu cai deitada na cama e encarei o teto por alguns segundos, em uma nova onda de riso, até me levantar, virar para Chloe e perguntar:
- Sobre o que era o trabalho mesmo?
Não foi apenas um “sim”, foi um “claro”. Acho que isso é bom. Eu espero que isso seja bom. Eu já conseguia imaginar o desenho pronto na minha cabeça. Será que eu devia falar pra ela que era trabalho do curso de desenho? Talvez ela me levasse mais a sério, apesar de ela não parecer está gozando de mim. Ainda mais porque eu não cursava desenho, mas eu não ia dizer isso a não ser que ela perguntasse.
Encarei a loira por alguns rápidos segundos. Era impossível parar de olhá-la. Fiz sinal pra que ela me seguisse, e fui andando. Procurei fixar meu olhar no chão ou olhando reto, pra outras pessoas, só assim eu conseguiria me concentrar pra falar alguma coisa com sentido.
- Então, er… Queria procurar um lugar legal, pra me ajudar a me inspirar. Apesar que você já é suficiente. - Sorri. Estava tentando ser agradável. Não sei porque, mas eu parecia me importar com o que ela pensaria a respeito de mim e minhas atitudes. Talvez só estivesse tentando impressioná-la pelo fato de ela não ter caído na minha lábia de primeira. - Então, Alice, tá aqui na S.A há muito tempo? Acho que não né, porque nunca te vi aqui antes.
Comecei a tentar puxar um assunto com ela, enquanto caminhávamos. Continuava sorrindo a toa, feito um idiota. Quando eu sorria, ela sorria, e essa era minha intenção. Não sei bem no que ela estava pensando, mas ao mesmo tempo que eu falava, eu procurava um lugar tranquilo pra poder me concentrar e desenhar. Afinal, fazia muito tempo que eu não fazia isso a sério. Antes que ela pudesse me responder, eu parei perto da lanchonete.
- Acho que vou comprar um refrigerante. Quer alguma coisa? Eu pago. - Perguntei, esperando na fila e aguardando sua resposta.
- E em qual dos lugares inspiradores do colégio você está pensando? - perguntei, ignorando a parte do “Você já é suficiente” - Eu sou novata. Eu entrei na Spring Art esse ano, apesar de já estar aqui há algum tempo, mas eu não acho que você se lembraria de mim mesmo que eu já estudasse aqui antes. Eu não sou exatamente o que as pessoas chamam de sociável. Estou mais para o contrário disso. - hesitei ao continuar. Eu estava falando demais. Logo eu, que costumava ser a garota mais silenciosa e invisível que já tinha visto por aí. Talvez fosse uma dessas pessoas que tagarelam quando estão nervosas. Sempre pensei que fosse daquelas que se enrolam pra falar e acabam ficando em silêncio mesmo. Não que eu estivesse nervosa, não sei de onde tirei esta ideia. - Mas e você? Estou deduzindo que já estudava aqui antes, mas me diga você mesmo.
Eu checava o meu relógio de pulso de cinco em cinco minutos, tentando pensar em uma desculpa para voltar para o quarto logo, em meio àqueles sorrisos charmosos, mas eu não acho que “Eu esqueci o fogão ligado” ou “Meu gato está com apendicite” fossem funcionar e não estava conseguindo pensar em nenhuma melhor, não enquanto sua voz sedutora me distraía e interrompia meus pensamentos.
- Não, obrigada - agradeci. Na verdade, eu estava morrendo por qualquer coisa com chocolate, mas o meu orgulho e o meu senso de feminismo jamais permitiriam que ele, um completo desconhecido, fosse pagar alguma coisa para mim - Eu vou te esperar aqui. - disse, enquanto avaliava as chances mínimas de sair dali sem que ele percebesse e não deixar um clima estranho nas próximas vezes que nos encontrássemos pelos arredores do colégio, mas eu decidi ficar. O garoto provavelmente precisava de uma cobaia para algum trabalho de desenho - matéria que ele certamente cursava ou, pelo menos, deduzi que cursasse - e eu quase me ofereci para isso, esbarrando nele e, depois, dizendo “Claro! Por que não?” em um som alto e estridente. Eu meio que devia isso a ele.
Tinha combinado com Alice de terminarmos o trabalho de história depois da aula. Estamos adiando isso há um tempo e o prazo de entrega está terminando. Então ela disse que eu poderia passar no quarto dela mais tarde, para darmos um fim nisso. Assim que sai da sala fui para o quarto guardar as coisas e pegar o resto das coisas para o trabalho. Melissa não estava lá, que novidade! Sinceramente, qual é o meu problema com colegas de quarto? Provavelmente eu devo assustá-las… Ou não. Tomei um banho rápido e coloquei os livros dentro da bolsa e sai do quarto. O dia estava ameno e de verdade eu preferia ficar no quarto vendo aqueles programas em que uma celebridade prega uma peça em outra. Comendo besteiras com alguma amiga. Mas o trabalho precisa ser terminado de uma forma ou outra… Damn!
Fui andando devagar pelo corredor e mexendo no celular, olhava para as portas tentando lembrar o número do quarto de Alice… Acho que era seis ou doze. Minha memória me desaponta ás vezes. Sério, como alguém com 17 anos não lembra o que foi dito há meia hora atrás? Passei na secretária para perguntar o número do quarto, por via das dúvidas. Tava na lista, quarto onze! Sabia, no fundo eu sabia. Voltei para os corredores e achei, bati na porta umas duas vezes e não obtive resposta. Estava quase indo embora quando Alice abriu a porta dando risada. Mas não era uma risada normal, podia jurar que ela estava sobre efeito do gás do riso. Sério. Olhei para ela e ergui uma sobrancelha. - Ta tudo bem? Ri junto dela.
Eu tinha combinado de terminar o trabalho de história que estava fazendo com a Chloe depois da aula e eu estava calmamente esperando por ela no meu quarto, mas o tempo estava passando muito devagar. Então, eu liguei a televisão e vi a coisa mais engraçada que havia visto nos últimos tempos. Foi aí que ouvi as batidas na porta. Chloe havia chegado para fazer o trabalho. Me levantei da cama com grande esforço - eu estava praticamente rolando de rir - e andei até a porta, esbarrando em uma mesa no caminho, o que só tornava tudo mais engraçado. Eu nem me lembrava de onde havia saído aquela mesa. Quando eu finalmente cheguei até a porta e consegui abri-la, Chloe parecia impaciente e eu ia começar a falar do trabalho quando uma lembrança de tudo que havia acontecido nos últimos minutos veio a minha mente e eu fui tomada por uma gargalhada súbita. Eu nunca ri tanto na minha vida. Sério. Quando eu ria, minha risada não passava de um riso baixo que não chamava muita atenção, mas, dessa vez, eu me peguei rindo como uma louca.
Mesmo que eu tentasse parar de rir, eu continuava me lembrando do que havia acontecido e voltava a rir de algo que parecia sem explicação - e que provavelmente não tinha nenhuma que levasse a tal reação. Assenti quando ela perguntou se estava tudo bem, sem ser capaz de dizer nada, e fiz sinal para que ela entrasse, fechando a porta atrás dela assim que ela entrou.
Quando levantei o meu rosto, senti um misto de atração, com admiração e surpresa. Era uma menina loira, com feições delicadas. Seus lábios grossos e ao mesmo tempo tão delicados. Ela tinha os cabelos mais loiros e mais lindos que eu já vi, e um leve sorriso que ressaltava as maçãs de sua bochecha. Ela pegou os livros de minhas mãos e eu ainda estava que nem um pastel admirando-a. Era provavelmente a garota mais linda que eu já vi na minha vida, e olha que eu já rodei o mundo vendo garotas lindas.
- Tranquilo. - Falei, meio sem jeito por ter derrubado os livros dela. - Sou o Michael, e o prazer é todo meu em te conhecer. - Peguei sua mão e dei um beijo nela. Levantei a cabeça, dei uma piscadela e sorri pra garota, na esperança de que ela devolvesse com aquele lindo sorriso novamente.
Ficamos em silêncios por alguns segundos, os quais foram aproveitados por mim para olhá-la de cima a baixo. Até o corpo dela era perfeito. Pensei em perguntar se ela malhava ou algo do tipo, mas acabamos de nos conhecer e talvez não fosse legal. Mas estranho mesmo era eu me conter com as palavras perto de uma garota. Esse cara não sou eu. Será que essa é a tal da paixão a primeira vista? Vamos torcer pra que não seja.
Sendo paixão ou não, a garota era linda, e era isso que eu procurava. Eu poderia nem mesmo ficar com ela, mas com certeza ela era um exemplo de garota que eu adoraria desenhar, e foi aí que tive a seguinte ideia.
- Er… eu tava procurando uma garota que me inspirasse pra eu desenhar. Quer ser essa minha garota? - Sorri novamente pra ela, aguardando ansiosamente por um sim. Até porque, quem seria a menina louca que recusaria um convite meu pra qualquer coisa?
Eu sorri e senti minhas bochechas corarem violentamente. Por alguns segundos - que pareciam durar horas -, senti o olhar dele em mim - talvez não estivesse apenas olhando, mas encarando, o que me fazia pensar se não tinha colocado a roupa do lado errado ou algo tipo - enquanto o silêncio reinava. Eu não tinha mais nada a dizer e, se ele também não tinha, só um simples “foi um prazer te conhecer” ou “nos vemos por aí” bastava como desculpa para sair dali. Eu já estava indo para o meu quarto antes, de qualquer forma. Eu já estava escolhendo minhas palavras quando ele começou a falar.
“Essa minha garota”. Uau, rápido demais, desconhecido.
Eu diria não, era de natureza. Eu estava a caminho do meu quarto, aliás. Nada me impedia de seguir em frente ao invés de ficar ali, exceto aquela estranha sensação de que eu deveria dizer sim. Mas por quê? Porque ele era bonito? Porque eu precisava de amigos? Porque eu estava entediada e não tinha mais nada para fazer?
Independente do motivo, parecia haver uma voz em minha cabeça que dizia que eu deveria dizer sim e todas as circunstâncias pareciam apontar para este mesmo sentido.
- Claro. Por que não? - disse, me sentindo uma idiota logo após tê-lo dito. Eu deveria ter voltado para o meu quarto, pensava. Mas eu já tinha dito sim - em alto e bom som - e era tarde demais para virar as costas e fingir que nada havia acontecido.
Mais um dia chato e tedioso na Spring Art. Eu não aguentava mais aquilo. As provas chegando, as matérias dificultando, meus pais resolvendo dar uma de preocupados e me fazendo cobranças, enfim. Sinto falta da minha vida das antigas, onde eu saía quase todo dia a noite, dançava, bebia e ficava com algumas gatas. Pois é, isso acabou de vez.
A melhor parte do meu dia são as aulas de teatro. Quando subo no palco, mesmo que sem fazer nada, eu sinto uma felicidade imensa. Qualquer problema meu some, e eu não consigo pensar em nada mais a não ser falas de uma peça famosa, onde eu possa repetir. É sério, mais ao mesmo tempo eu me divirto.
Há alguns dias atrás, eu andei lendo na biblioteca. Sim, acredite, eu fui na biblioteca pra ler e não só flertar. Comecei a procurar livros de literatura, mas a maioria era um saco com toda aquela linguagem antiga e os verbos conjugados de formas que eu nem conseguia compreender. No meio de um dos livros, achei um papel meio rasgado com um desenho de um dragão que parecia um esboço de uma tatuagem. Não sei se a pessoa usou, mas ficou muito maneiro. Lembrei-me de quando era pequeno e eu desenhava. Não era um grande artista, mas me virava bem. Lembro que eu costumava ver pokemon, digimon e esses desenhos, daí eu olhava pra tela e ia copiando.
É isso! Eu queria sair do tédio, e nada melhor do que fazer coisas novas pra isso acontecer. Fui correndo no meu quarto, peguei caderno, lápis e borracha e saí andando por aí procurando inspiração. De repente, decidi que queria desenhar garotas. Comecei a andar procurando alguma menina linda que eu pudesse desenhá-la. Estava quase correndo, e não percebi quando esbarrei em alguém.
- Foi mal, foi mal. Deixa eu te ajudar. - Falei, ajudando a pegar alguns cadernos que havia caído da pessoa, mas não tinha levantado o rosto pra ver quem era.
Eu havia desenvolvido o hábito de sair para passear pela escola nos períodos em que não havia aula - períodos estes que ocupavam grande parte do meu tempo - e procurar alguma coisa interessante para fotografar. Não que estivesse inspirada artisticamente ou qualquer coisa do tipo, era mais uma desculpa para sair do meu quarto e ir fazer algo além de ler. Eu havia chegado ao ponto de devorar três livros por semana e estava me excluindo cada vez mais da sociedade. Fazia tanto tempo que eu não conversava com alguém que passei a considerar a possibilidade de estar enlouquecendo.
Era normal levar um tempo para se adaptar em uma nova escola, mas comigo sempre havia sido diferente. E já fazia algum tempo que eu havia me mudado para a Spring Art e até então não havia ninguém com quem eu conversara que pudesse ser considerado um amigo próximo. Para que alguém se tornasse meu amigo verdadeiramente, essa pessoa deveria conquistar minha confiança, algo consideravelmente difícil. E era por isso que eu sentia tanta falta do Canadá e dos meus amigos de lá.
Eu não estava realmente inspirada para fotografar, não importa o quanto tentasse me convencer disso. Então, acabei desistindo. Eu abri minha bolsa para guardar minha câmera quando todos os cadernos e livros que eu carregava lá dentro para levar para a próxima aula caíram. Ótimo. Acho que ouvi alguém rindo atrás de mim, mas não me virei pra olhar. Quando guardei o material na bolsa e me levantei para voltar para o quarto - pois havia perdido toda a vontade de passear por aí -, só tive tempo de avistar uma figura masculina e, quando percebi, estava no chão com os cadernos e livros caídos novamente.
- Não tem problema - sorri, tentando ser gentil - Ah, e obrigada. - respondi, pegando os cadernos de sua mão e guardando-os de volta na bolsa. - Sou Alice, aliás. - disse, estendendo a mão, sem perceber o quão antiquado esse ato era.
8. Dia dos favoritos! Qual é o saber de sorvete favorito do seu personagem? Cor? Música?
O sabor de sorvete favorito de Alice é o de flocos, sua cor favorita é o azul e sua música favorita, embora mude em uma frequência considerável, é Paradise, do Coldplay.
7. Tem algum momento ou evento que o seu personagem deseje apagar do seu passado? Qual e por quê?
Há diversos momentos na vida de Alice que ela gostaria de apagar de seu passado - e por que não fazê-lo crescendo em uma família cujo lema era “Não fale sobre os seus problemas, apenas ignore-os”? -, mas, provavelmente, a lembrança de que ela mais gostaria de se livrar é a da noite do acidente. Ela precisava de uma carona e Max se ofereceu para levá-la pra casa. Ela tentou dizer não, mas ele acabou convencendo-a. No meio do caminho, Max começou a gritar que a amava e que os dois deveriam ficar juntos de novo e a discussão saiu do controle, à medida que ele se tornava demasiadamente agressivo, de forma que Alice nunca havia o visto. Em meio a isso, Max perdeu o controle do carro que foi parar no outro lado da pista e Alice gritou, ao avistar um caminhão vindo em direção a eles. Max virou o volante do carro rapidamente para desviar e Alice, em um instinto, abriu a porta do passageiro e pulou para fora, bem a tempo de assistir, horrorizada, o carro capotar ladeira abaixo.